quarta-feira, 11 de novembro de 2015

Água: mineral ou prejudicial?

Antigamente, todos bebiam a água das estações de tratamento. De uns dez anos para agora, um número crescente de pessoas apenas bebe água mineral engarrafada, sobretudo por conta da propaganda. Esta doutrinação convenceu as pessoas de que a água da torneira é prejudicial à saúde. Já vi muitos argumentos pró e contra esta prática, e discutamos alguns.

1. A água tratada é boa ao sair da estação de tratamento, já a que chega na torneira não tem esta garantia. Este argumento é válido apenas se o encanamento ou a caixa d'água domésticos estiverem em mau estado. Ao chegar ao cavalete das casas, a água é confiável, e não apenas na saída da estação. A razão é a pressurização da rede. Existem inúmeros vazamentos na rede, onde a água tratada é perdida, mas não há entrada da água do solo na rede. Se a pressão for insuficiente, haverá entrada de água do solo para a rede. Ou seja, contaminação. Esta situação não tem como ocorrer, pois caso contrário a água nem chegaria às casas. Logo, o argumento é falso.

2. A água tratada contém metais pesados. Suponhamos que isto seja verdade. Evitar a água de torneira tem algum efeito? Terminantemente, não. Tudo o que comemos ou bebemos é feito a partir de água, e não necessariamente de água mineral. Se alguém cozinha arroz na água da rede, todo o conteúdo de metais da água ficará no arroz. Neste caso, pode-se utilizar água mineral para cozinhar. Em todo caso, nem tudo resolve-se assim. O gado bovino não bebe água mineral, e todo o conteúdo de metais fica retido no corpo do animal. Assim, na carne do animal está todo o metal pesado que ele ingeriu através da água desde a sua vida intra-uterina. Há estimativas da necessidade de 70 litros de água para um bife de trezentos gramas. Ou seja, se se a pessoa comer em média um bife por dia, considerando que a pessoa tome um litro de água por dia, em cinco dias a pessoa já ingere o equivalente em metais para um ano de água. Isto sem considerar outras fontes. Nem os vegetarianos estão a salvo, pois os vegetais também acumulam os tais metais pesados, assim como o leite e os ovos. Ou seja, é se a água é contaminada com metais pesados, a menor fonte de ingestão é a água pura, as demais fontes têm  um peso maior. Ou seja, o argumento é falso.

Além destas crenças, a água engarrafada tem outro problema: a embalagem. O primeiro problema é o lixo gerado. São milhões garrafas PET descartadas no ambiente, que contaminarão inclusive a água que será tratada. Além disso, não há como garantir que o plástico não libere substâncias de sua formulação na água. Estas garrafas são seguras em determinadas condições, sobretudo de temperatura. Se ficam no sol em ambientes quentes, como dentro dos caminhões de entrega ou armazéns, existe a possibilidade da liberação de, por exemplo, ácido ftálico. Ou seja, não há nenhum motivo racional para beber a água mineral. A propaganda bem sabe disto, e evoca a emoção, e nunca a razão, para suas campanhas. Um destes argumentos é o status, sobretudo para quem bebe uma água cara. Enfim, um exemplo da ignorância da nossa sociedade do pseudo-conhecimento, em que um discurso científico distorcido é usado para atender interesses estranhos à ciência.

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

Ciência, crise e culpados

O Brasil reduziu o investimento científico em 2105, tanto os estados como a união. A causa é a queda de arrecadação gerada pela baixa atividade econômica. Algumas publicações da blogosfera tecem mais considerações sobre o caso, vejamos três exemplos: Átila Iamarino atribui culpa aos cientistas por não divulgarem seus resultados ao público leigo. Se houvesse maior divulgação, os cortes seriam medidas impopulares, e os políticos pensariam duas vezes antes de tais cortes. Menciona o caso americano, onde os professores divulgam suas pesquisas o máximo possível. O professor Roberto Berlinck questiona esta visão, e considera que as universidades americanas têm uma melhor situação por sua melhor administração. Adicionalmente, observa que a divulgação científica é mal-vista nas universidades brasileiras, inclusive pelos alunos. Finalmente, o professor Marcos Pedlowski observa aspectos políticos, e argumenta que as instituições públicas estão em segundo plano para o governo federal, que destina expressivas importâncias para faculdades privadas.

A tal crise não começou com a recessão, e imputar a culpa na falta de divulgação científica, como faz Atila Iamarino,  é um argumento ingênuo. É como acreditar que o governo não reduziria este gasto se houvesse mais divulgação. Seria benéfico um aumento da divulgação, mas é improvável que a população vá às ruas protestar por conta dela.

A afirmação do professor Pedlowski da falta de uma política para o setor parece mais acertada. Ou seja, é necessário um modelo universitário de ensino e de pesquisa. Neste quesito, o argumento da má gestão do professor Berlinck tem implicações profundas. Parece pouco crível que a mudança de administração consiga sozinha mudar alguma coisa. É como acreditar que cientistas importantes eram bons administradores, ou que sempre foram respaldados por boas administrações. Se assim fosse, Einstein não desenvolveria a relatividade especial quando trabalhava num escritório de patentes. Entretanto, o prof. Berlinck cita a Universidade de Michigan em Ann Arbor  como um exemplo a ser seguido. Financiada majoritariamente por doações e mensalidades, esta universidade tem vencedores de prêmio Nobel e figura numa boa posição na classificação do jornal The Times. Estes ranking são controversos, seja por empregarem critérios discutíveis, seja por desconsiderarem o contexto de cada país. Por trás destas classificações, existe um modelo de universidade, único para o mundo inteiro.

Todavia, qual o melhor critério para avaliar uma universidade e definir o tal modelo? o mais fácil, e não necessariamente o melhor, é aceitar um palpite. Para muitos, basta consultar o The Times Higher Education ou outra classificação. O outro caminho, é a comunidade acadêmica estudar o problema e desenvolver este modelo adequado à sua realidade. Uma academia incapaz de elaborar um projeto de universidade, e que procura num jornal o que deve fazer tem sérios problemas. Isto talvez aponte a origem da turbulência na ciência no Brasil. A pior crise não é de financiamento, é intelectual. O dinheiro é necessário, mas não suficiente. Uma academia que copia modelos e que chora por não poder copiá-los nunca será respeitada. A prática da cópia, que é diferente do plágio, torna os originais como vilões, e isto explica parte da resistência à divulgação. Quem não cria, não quer que os outros saibam disso. A intelectualidade americana, onde existem muitíssimos estrangeiros, é respeitada internamente também por ser considerada original, independente e influente, e somente quem cria influencia. É claro que a divulgação ajuda, mas não basta divulgar, é preciso criar. Esta chaga estava oculta pelo financiamento abundante de anos atrás. Quando este diminuiu, ficou evidente.