segunda-feira, 2 de novembro de 2015

Ciência, crise e culpados

O Brasil reduziu o investimento científico em 2105, tanto os estados como a união. A causa é a queda de arrecadação gerada pela baixa atividade econômica. Algumas publicações da blogosfera tecem mais considerações sobre o caso, vejamos três exemplos: Átila Iamarino atribui culpa aos cientistas por não divulgarem seus resultados ao público leigo. Se houvesse maior divulgação, os cortes seriam medidas impopulares, e os políticos pensariam duas vezes antes de tais cortes. Menciona o caso americano, onde os professores divulgam suas pesquisas o máximo possível. O professor Roberto Berlinck questiona esta visão, e considera que as universidades americanas têm uma melhor situação por sua melhor administração. Adicionalmente, observa que a divulgação científica é mal-vista nas universidades brasileiras, inclusive pelos alunos. Finalmente, o professor Marcos Pedlowski observa aspectos políticos, e argumenta que as instituições públicas estão em segundo plano para o governo federal, que destina expressivas importâncias para faculdades privadas.

A tal crise não começou com a recessão, e imputar a culpa na falta de divulgação científica, como faz Atila Iamarino,  é um argumento ingênuo. É como acreditar que o governo não reduziria este gasto se houvesse mais divulgação. Seria benéfico um aumento da divulgação, mas é improvável que a população vá às ruas protestar por conta dela.

A afirmação do professor Pedlowski da falta de uma política para o setor parece mais acertada. Ou seja, é necessário um modelo universitário de ensino e de pesquisa. Neste quesito, o argumento da má gestão do professor Berlinck tem implicações profundas. Parece pouco crível que a mudança de administração consiga sozinha mudar alguma coisa. É como acreditar que cientistas importantes eram bons administradores, ou que sempre foram respaldados por boas administrações. Se assim fosse, Einstein não desenvolveria a relatividade especial quando trabalhava num escritório de patentes. Entretanto, o prof. Berlinck cita a Universidade de Michigan em Ann Arbor  como um exemplo a ser seguido. Financiada majoritariamente por doações e mensalidades, esta universidade tem vencedores de prêmio Nobel e figura numa boa posição na classificação do jornal The Times. Estes ranking são controversos, seja por empregarem critérios discutíveis, seja por desconsiderarem o contexto de cada país. Por trás destas classificações, existe um modelo de universidade, único para o mundo inteiro.

Todavia, qual o melhor critério para avaliar uma universidade e definir o tal modelo? o mais fácil, e não necessariamente o melhor, é aceitar um palpite. Para muitos, basta consultar o The Times Higher Education ou outra classificação. O outro caminho, é a comunidade acadêmica estudar o problema e desenvolver este modelo adequado à sua realidade. Uma academia incapaz de elaborar um projeto de universidade, e que procura num jornal o que deve fazer tem sérios problemas. Isto talvez aponte a origem da turbulência na ciência no Brasil. A pior crise não é de financiamento, é intelectual. O dinheiro é necessário, mas não suficiente. Uma academia que copia modelos e que chora por não poder copiá-los nunca será respeitada. A prática da cópia, que é diferente do plágio, torna os originais como vilões, e isto explica parte da resistência à divulgação. Quem não cria, não quer que os outros saibam disso. A intelectualidade americana, onde existem muitíssimos estrangeiros, é respeitada internamente também por ser considerada original, independente e influente, e somente quem cria influencia. É claro que a divulgação ajuda, mas não basta divulgar, é preciso criar. Esta chaga estava oculta pelo financiamento abundante de anos atrás. Quando este diminuiu, ficou evidente.

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