sábado, 5 de dezembro de 2015

Voorwald pega o boné

A demissão do prof. Herman Voorwald da Secretaria Estadual da Educação de São Paulo é assemelhada à do prof. Renato Janine Ribeiro do Ministério da Educação, comentada neste blogue em 6 de outubro de 2015. Ao contrário de Janine, que durou alguns meses, Voorwald permaneceu cinco anos na pasta. Foi uma passagem menos humilhante, mas igualmente patética. Forçado a defender um plano de reorganização sem fundamentação e criticado por pesquisadores e educadores, Voorwald foi ainda apartado das negociações políticas quando a situação política agravou-se. Em virtude das ocupações de escolas, o governador Alckmin não deixou um assunto sensível às suas pretensões políticas nas mãos de um amador como Voorwald, que ocupava a pasta apenas para envernizar a gestão da educação peessedebista em São Paulo. Entregou o assunto ao secretário da casa civil Edson Aparecido, um profissional do ramo. Com o recuo do governo com o plano, o professor Herman ficou como responsável único pelo projeto abandonado, e não restou outra alternativa que a demissão. Mais um episódio lamentável na história da atuação política da academia brasileira.

Após sua fracassada passagem pela pasta da instrução pública em São Paulo, o ex-secretário retorna à sua cátedra na escola de engenharia da Unesp de Guaratinguetá, onde poderá aumentar a partidarização política crescente que corrói o ambiente acadêmico brasileiro. Talvez ele passe à iniciativa privada, onde o conhecimento político é bastante valorizado. Em todo caso, justiça seja feita, não se pode negar o efeito benéfico da gestão pública na atividade científica do professor Herman. Segundo seu Currículo Lattes, foi autor de trinta trabalhos nos cinco últimos anos, sendo que publicou 71 durante os vinte e oito anos precedentes. Um expressivo aumento de produtividade. Não se trata, porém, de fato isolado. O ex-ministro da C&T, Sérgio Rezende, também teve um ótimo desmpenho cientométrico durante sua gestão. Nada como um pouco de arejamento intelectual.

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Metafísica e ciência

Em «A crítica da razão pura», Immanuel Kant discute a existência de uma realidade inacessível aos sentidos. Segundo Kant, este mundo imaterial é regido por uma «razão pura». Para os filósofos do ceticismo, como David Hume, se esta «razão pura» existir, não influencia as ciências, que dependem da realidade material para validar suas afirmações. Sob o ponto de vista cético, a discussão termina aqui.


Contudo, é possível insistir nas idéias kantianas se  a influência da linguagem sobre a ciência é posta em causa. No prefácio de "Methods of modern mathematical physics", M. Reed e B. Simon discutem brevemente as interações entre físico-matemáticas. Afirmam que a influência da física sobre a matemática é clara, mas a influência da matemática sobre a física é mal compreendida. A física gera problemas que podem despertar o interesse puramente matemático, e esta é a sua influência. Por outro lado, muitos físicos consideram a matemática a linguagem para a expressão da física. Se a matemática é uma linguagem, ela não deveria influenciar no objeto que descreve. Sendo assim, qual a origem da dúvida de Reed e Simon?

Se a matemática não é uma linguagem dentre outras possíveis, então pode não haver outro meio para descrever a natureza. Ou seja, todo fenômeno físico deve necessariamente ter pelo menos uma abstração matemática que o modele. Ao físico teórico caberia relacionar as abstrações matemáticas aos fenômenos físicos. O mundo real seria assim aproximadamente igual a uma fração deste mundo abstrato. Não se pode então dizer que a matemática seja apenas uma linguagem, é possível que, a partir de abstrações, fenômenos físicos sejam procurados. É como criar palavras e depois verificar se existe algo corresponda ao seu significado. Grande parte da física teórica é atualmente feita assim.


Voltando a Kant, os objetos matemáticos, tais como os da «razão pura», seriam artificiais e sem correspondentes na realidade, de maneira que a matemática não pode servir de modelo para outros assuntos. A crítica de Kant envolve o uso da formatação matemática para a filosofia, mas podemos estendê-la à física. Kant não critica utilizar estas abstrações fora da matemática, mas sim descrever o mundo como fazem os matemáticos. Para complicar, a linguagem matemática seria inadequada à filosofia, e talvez seja à física. Ou seja, podemos usar matemática, mas não imitar os matemáticos com cientistas.

Respondendo Reed e Simon,  a matemática influencia a física na medida em que seus objetos são indispensáveis para formular teorias. Se um fenômeno não consegue ser explicado, possivelmente a o meio matemático adequado  não foi encontrado. A física é então dependente em grande parte tanto do progresso da matemática como da sua introdução na física.