terça-feira, 27 de outubro de 2015

A ciência auto-corretora

Para saber se algo é verdadeiro, é preciso de alguma referência. Assim funciona com quase tudo. Se alguém mente, algumas perguntas desmascaram o engodo. Porém, se alguém diz algo que acredita verdadeiro, pode ser preciso mais que perguntas para saber se a afirmação procede. Na ciência, a referência é a natureza. Se queremos saber se algo é verdadeiro, formulamos uma pergunta de maneira que a resposta possa ser resolvida com um teste prático. De onde vem o carbono para as plantas crescerem? A fotossíntese revela que vem do ar, e não do solo. Afirmações assim são feitas em revistas científicas, e todo artigo contém algo que o seu autor acredita verdadeiro. Isto não garante que não existam artigos com erros. Excluídas as falsificações propositais, há equívocos de variadas origens: hipóteses mal-elaboradas, experimentos mal-conduzidos, metodologias inadequadas, equipamentos defeituosos, dentre outras causas. Antes de publicados, os artigos foram revisados, mas o assessor pode não notar o erro e recomendar a publicação do trabalho. Depois de publicado, quem utiliza o resultado do artigo deve repetir o experimento para comprovar sua veracidade. Ou seja, todo o conhecimento publicado foi analisado por um assessor e posteriormente pela comunidade científica inteira. Levanta-se assim a hipótese da ciência dispor de um mecanismo interno de correção, sendo esta a base da sua credibilidade.

Entretanto, o professor Douglas Allchin considera a auto-correção científica um mito¹. Ele apresenta exemplos de erros persistentes por longa data, detectados apenas ocasionalmente e contestando o funcionamento da auto-correção. Dentre os exemplos citados, está a descoberta da origem bacteriana das úlceras gástricas. Milhões de pessoas foram inutilmente tratadas com anti-ácidos ou mesmo operadas antes da descoberta do erro, cuja a correção enfrentou enorme resistência dos médicos. Os detentores do saber estabelecido estavam apaixonados pelo que sabiam, ou achavam que sabiam, e ao mesmo tempo apaixonaram-se pela própria ignorância. Além de contrariar a hipótese da auto-correção, pois a comunidade tentou negar o fato ao invés de investigar a teoria aceita, o caso também refuta a hipótese de que paixões não influem na ciência.

Outra paixonite atingiu primatologistas. Partindo-se da certeza, e não da hipótese, de que o homem é um animal único, estudaram-se os hábitos dos chimpanzés. Formularam a hipótese de que o homem era o único animal a produzir ferramentas. Quando descobriram que macacos também o faziam, a conclusão deveria ser de que o homem não é um ser único, mas um animal como os demais. Contudo, formularam outras hipóteses, como que o homem seria o único a ensinar os filhotes o uso das ferramentas; observado isto também nos macacos, disseram que o homem seria o único a planejar a utilização das ferramentas, e assim por diante. Sempre que os fatos contrariavam a crença, procurava-se outra hipótese para validar a suposta singularidade humana. Ou seja, os fatos não refutaram argumentos baseados em crenças, novamente contrariando também a hipótese da auto-correção. No artigo de Allchin, existem mais exemplos da dificuldade da ciência em identificar e corrigir os seus equívocos.

Esta conclusão coloca em questão a imagem social das ciências e dos cientistas, e os usos práticos destas imagens. A credibilidade científica é usada para variados fins, como induzir pessoas a comprar produtos e serviços, procurar tratamentos, aceitar argumentos e eleger políticos sem pensar muito.  Ao tornar as pessoas menos críticas e a aceitar mais facilmente aquilo que não entendem, a ciência passa a ser um instrumento de dominação e não de libertação, escrava de interesses comerciais e políticos e não um meio de defesa contra tais interesses. Este sub-produto trágico da ciência, que obscurece ao invés de esclarecer, onde cientistas e teorias são adorados ou odiados como deuses é questionado por Allchin, o que confere relevância ao seu trabalho. O atual momento é de transformação, e tudo indica que a ciência do futuro será mais especializada, mais fragmentada e  mais alienada de outros setores do conhecimento, quem também tendem ao isolamento. O resultado disto no longo prazo é imprevisível, mas parece mais um passo no caminho para o fim do intelectual total idealizado da antiguidade clássica e cristianizado na idade média. O futuro será dos super-especialistas, por bem ou por mal.
 


1. Allchin, D. 2015. "Correcting the ‘Self-correcting" Mythos of Science.Filosofia e História da Biologia 10:19–35.

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