domingo, 18 de outubro de 2015

A fosfoetanolamina cura o câncer?

Interessante a polêmica em torno da fosfoetanolamina para tratar o câncer. O professor Gilberto Chierice, aposentado do Instituto de Química da USP em São Carlos (IQSC), estudou esta substância e acredita que ela pode ser um tratamento. Ele chegou a distribuir mais de 50.000 cápsulas da substância por mês, e a atividade de Chierice chegou à grande imprensa e à internet depois de ações judiciais pelo direito de receber a substância. Vejamos alguns aspectos.

"Não existem evidências científicas da eficácia da fosfoetanolamina". Segundo esta frace, existe uma classificação de evidências, sendo a 'evidência científica' a mais evidente da escala. A ciência deve explicar fatos, e não existe divisão entre fatos científicos e fatos não-científicos. No máximo existe o estudo sistemático de fatos. Medicamentos já foram desenvolvidos a partir do conhecimento popular, excluindo os inócuos e potencializando os eficazes. Substâncias naturais sempre foram utilizadas popularmente, e agora a substância é sintética. Entretanto, não se pode negar o fato de pessoas tomarem regularmente a substância e dizer que não é uma 'evidência científica'. Negar fatos é um profundamente anti-científico. Se pessoas tomam a substância para uma ou várias enfermidades, cabe ao cientista estudar metodicamente e verificar se a substância tem eficácia.

Por outro lado, existe uma questão ética. O prof. Chierice distribuiu a fosfoetanolamina sem o conhecimento dos seus efeitos. Ele tampouco sabe se alguém se curou, nem de efeitos colaterais, nem de contra-indicações, nem se quem tomou realmente tinha câncer. Enfim, as etapas para a transformação de uma droga potencialmente terapêutica num medicamento foram ignoradas. Tampouco se pode dizer que tomar fosfoetanolamina seja um tratamento. A distribuição foi aleatória e quem tomou as cápsulas foi cobaia de uma experiência sem controle. Enfim, é uma atitude de alto risco, e cabe ao professor explicar a sua conduta. Mas a ação já ocorreu, e não se pode dizer que um fato é falso por conta de um ato aparentemente anti-ético. Não cabe à ciência validar fatos, mas somente explicá-los. 

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