terça-feira, 13 de outubro de 2015

A história como ciência

Todas as ciências constroem modelos. Um modelo é um representação simplificada da realidade. Se alguma coisa se acelera, a mecânica de Newton diz que há uma força. A força é um modelo para  a aceleração. O evolucionismo de Darwin é um modelo para a transformação dos seres vivos. Nenhum modelo é completo, e sempre há fenômenos que ele é incapaz de descrever, e assim a ciência permanece em eterna construção, sempre a rever e construir modelos.

Seria a história uma ciência? Ela não faz predições como: dadas tais condições, o resultado será tal. A história descreve o passado, e nisto ela é próxima da biologia, que descreve os seres vivos. Assim como a história não prevê o futuro das sociedades, a biologia não prevê novas espécies. Por outro lado, a história permite comparações. É possível comparar a história de guerras, de impérios, de religiões, etc... Desta forma, é possível formular modelos, e tentar observar se estes fenômenos obedecem algum padrão, e talvez fazer predições qualitativas sobre eventos contemporâneos.

Vejamos uma ilustração: em "A revolução industrial da idade média", Jean Gimpel descreve técnicas produtivas desenvolvidas entre os séculos XI e XIII, sobretudo na França. Alguns exemplos de invenções do período: um estribo que permitiu que a carga transportada por carroças fosse mais que triplicada sem aumentar o número de cavalos; diversas propulsões de moinhos; a mecanização da produção da lã; o rodízio triplo de campos agrícolas; e a introdução da cultura da aveia. Outro caso foi o desenvolvimento de sofisticados relógios mecânicos. Estas novidades estiveram ligadas à Igreja Católica, cuja Ordem Cistercience desempenhou um papel fundamental na França. Os monges desta ordem eram operários disciplinados e formaram a mão-de-obra mais produtiva do período. Catedrais de grande envergadura e altura foram construídas como símbolos de poderio econômico e capacidade técnica.

Muito bem, trata-se de algo bastante interessante e que poderia esgotar-se aí. Porém, Gimpel utiliza a França medieval como modelo para a história contemporânea dos Estados Unidos. Se o modelo for adequado, ele permite fazer previsões acerca da história americana. Como desejado, o modelo é mais simples que o objeto a ser modelado, e tem elementos que permitem comparações. Tanto os EUA como a França cisterciense tiveram o seu operariado, no caso francês motivado pela religião, e no caso americano pela ideologia do liberalismo econômico. Os trabalho nos mosteiros cistercienses encontra paralelo nas fábricas do modelo de Henry Ford. Thomas Edison foi figura deste ímpeto de criatividade industrial, tal como alguns monges inventivos citados no livro.

Atualmente, observamos sinais de decadência dos americana, como a crise do sub-prime. A França medieval já decaiu e transformou-se, e Gimpel pergunta se algumas das características da decadência francesa podem ser vistas nos EUA para modelar o seu declínio, mesmo que parcialmente. No caso francês, aquela sociedade estagnou-se quando substituiu o esforço criativo pelo ócio contemplativo. Neste momento, a sociedade vai admirar e proteger o que criou. Isto é observado nos EUA, que paulatinamente deixam de ser uma potência industrial e sua população mais usufrui dos resultados desta industrialização do que tenta reformá-la. Também a construção de catedrais permite o uma comparação com a construção de arranha-céus, que simbolizaram a grandeza americana. Esta corrida pela altura ainda existe, e hoje os prédios mais altos estão na Ásia, que também os ostenta com o mesmo fim.

Outro parâmetro é a tecnologia militar,  um dos poucos setores em que os Estados Unidos permanecem na vanguarda. Coisa semelhante ocorreu na França, cujo este poderio militar foi empenhado na guerra dos cem anos. Após esta guerra, a França medieval não manteve sua estrutura produtiva e tornou-se um país muito diferente do que foi durante sua revolução industrial. Este fenômeno pode também ser visto nos EUA, que consumem muitos recursos em empreitadas belicosas. É claro que a comparação não é exata, pois modelos não são a realidade, e além disso as predições são qualitativas. Em todo caso, utilizar a história medieval entender a história contemporânea é um exemplo de modelo simplificado para descrever um fenômeno mais complexo. Ou seja, a história não é apenas uma crônica de fatos, mas uma ciência que emprega o método científico para coletar dados e elaborar modelos das atividades humanas.

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