Hoje é provavelmente um dos últimos dias da sra. Rousseff como presidente do Brasil. Dela e de seu ministério, para o bem ou para o mal. Gostemos ou não, a destituição é realidade factual, e cabe aos intelectuais entender as causas do ocaso prematuro deste governo.
Sobre este curto e tumultuado mandato, não deveria-se esquecer o caso do físico Adlène Hicheur. Condenado na França a cinco anos de reclusão por envolvimento com terroristas, o Dr. Hicheur trabalhava como professor visitante da UFRJ após a sua libertação. Seu envolvimento resumiu-se à troca de correspondência eletrônica com supostos integrantes da organização Al-Qaeda, e foi suficiente para condená-lo. Cientistas franceses e suíços criticaram o veredicto, e inutilmente moveram uma campanha para revogar sua prisão. A revista brasileira Época descobriu o caso e, no dia 8 de janeiro de 2016, publicou-o em primeira página sob o título "Um terrorista no Brasil". É bastante evidente o apelo sensacionalista da matéria, um bom exemplo de mau jornalismo.
Em todo caso, algumas pessoas deixaram-se influenciar pela matéria; dentre elas, o sr. Aloizio Mercadante, ministro da educação. Ele, declarou: "Uma pessoa que teve aqueles e-mails que foram publicados e foi condenada por prática de terrorismo não nos interessa para ser professor no Brasil. Não temos nenhum interesse nesse tipo de pessoa"
Políticos não costumam dar declarações a troco de nada. O baixo nível intelectual da matéria tampouco deve ter sido convincente ao sr. ministro. O mais provável é que o sr. Mercadante tentou ganhar alguma notoriedade com o caso. Foi um ataque covarde, após o qual o Dr. Adléne, sem qualquer chance de resposta, decidiu abandonar o país.
A sra. Maria do Rosário, ministra da secretaria de direitos humanos, ficou muda no episódio, como se o linchamento pela imprensa e pelo ministro fosse algo aceitável. Nem ela nem a sra. Rousseff, ex-presa política torturada, comoveram-se com o caso. Qual a relação do caso Hicheur com a derrocada de Dilma? Talvez nenhuma, mas exemplifica a relação dos governantes brasileiros com os supostos princípios que fundamentam sua atividade política.
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