A demissão do prof. Herman Voorwald da Secretaria Estadual da Educação de São Paulo é assemelhada à do prof. Renato Janine Ribeiro do Ministério da Educação, comentada neste blogue em 6 de outubro de 2015. Ao contrário de Janine, que durou alguns meses, Voorwald permaneceu cinco anos na pasta. Foi uma passagem menos humilhante, mas igualmente patética. Forçado a defender um plano de reorganização sem fundamentação e criticado por pesquisadores e educadores, Voorwald foi ainda apartado das negociações políticas quando a situação política agravou-se. Em virtude das ocupações de escolas, o governador Alckmin não deixou um assunto sensível às suas pretensões políticas nas mãos de um amador como Voorwald, que ocupava a pasta apenas para envernizar a gestão da educação peessedebista em São Paulo. Entregou o assunto ao secretário da casa civil Edson Aparecido, um profissional do ramo. Com o recuo do governo com o plano, o professor Herman ficou como responsável único pelo projeto abandonado, e não restou outra alternativa que a demissão. Mais um episódio lamentável na história da atuação política da academia brasileira.
Após sua fracassada passagem pela pasta da instrução pública em São Paulo, o ex-secretário retorna à sua cátedra na escola de engenharia da Unesp de Guaratinguetá, onde poderá aumentar a partidarização política crescente que corrói o ambiente acadêmico brasileiro. Talvez ele passe à iniciativa privada, onde o conhecimento político é bastante valorizado. Em todo caso, justiça seja feita, não se pode negar o efeito benéfico da gestão pública na atividade científica do professor Herman. Segundo seu Currículo Lattes, foi autor de trinta trabalhos nos cinco últimos anos, sendo que publicou 71 durante os vinte e oito anos precedentes. Um expressivo aumento de produtividade. Não se trata, porém, de fato isolado. O ex-ministro da C&T, Sérgio Rezende, também teve um ótimo desmpenho cientométrico durante sua gestão. Nada como um pouco de arejamento intelectual.
sábado, 5 de dezembro de 2015
terça-feira, 1 de dezembro de 2015
Metafísica e ciência
Em «A crítica da razão pura», Immanuel Kant discute a existência de uma realidade inacessível aos sentidos. Segundo Kant, este mundo imaterial é regido por uma «razão pura». Para os filósofos do ceticismo, como David Hume, se esta «razão pura» existir, não influencia as ciências, que dependem da realidade material para validar suas afirmações. Sob o ponto de vista cético, a discussão termina aqui.
Contudo, é possível insistir nas idéias kantianas se a influência da linguagem sobre a ciência é posta em causa. No prefácio de "Methods of modern mathematical physics", M. Reed e B. Simon discutem brevemente as interações entre físico-matemáticas. Afirmam que a influência da física sobre a matemática é clara, mas a influência da matemática sobre a física é mal compreendida. A física gera problemas que podem despertar o interesse puramente matemático, e esta é a sua influência. Por outro lado, muitos físicos consideram a matemática a linguagem para a expressão da física. Se a matemática é uma linguagem, ela não deveria influenciar no objeto que descreve. Sendo assim, qual a origem da dúvida de Reed e Simon?
Se a matemática não é uma linguagem dentre outras possíveis, então pode não haver outro meio para descrever a natureza. Ou seja, todo fenômeno físico deve necessariamente ter pelo menos uma abstração matemática que o modele. Ao físico teórico caberia relacionar as abstrações matemáticas aos fenômenos físicos. O mundo real seria assim aproximadamente igual a uma fração deste mundo abstrato. Não se pode então dizer que a matemática seja apenas uma linguagem, é possível que, a partir de abstrações, fenômenos físicos sejam procurados. É como criar palavras e depois verificar se existe algo corresponda ao seu significado. Grande parte da física teórica é atualmente feita assim.
Voltando a Kant, os objetos matemáticos, tais como os da «razão pura», seriam artificiais e sem correspondentes na realidade, de maneira que a matemática não pode servir de modelo para outros assuntos. A crítica de Kant envolve o uso da formatação matemática para a filosofia, mas podemos estendê-la à física. Kant não critica utilizar estas abstrações fora da matemática, mas sim descrever o mundo como fazem os matemáticos. Para complicar, a linguagem matemática seria inadequada à filosofia, e talvez seja à física. Ou seja, podemos usar matemática, mas não imitar os matemáticos com cientistas.
Respondendo Reed e Simon, a matemática influencia a física na medida em que seus objetos são indispensáveis para formular teorias. Se um fenômeno não consegue ser explicado, possivelmente a o meio matemático adequado não foi encontrado. A física é então dependente em grande parte tanto do progresso da matemática como da sua introdução na física.
Contudo, é possível insistir nas idéias kantianas se a influência da linguagem sobre a ciência é posta em causa. No prefácio de "Methods of modern mathematical physics", M. Reed e B. Simon discutem brevemente as interações entre físico-matemáticas. Afirmam que a influência da física sobre a matemática é clara, mas a influência da matemática sobre a física é mal compreendida. A física gera problemas que podem despertar o interesse puramente matemático, e esta é a sua influência. Por outro lado, muitos físicos consideram a matemática a linguagem para a expressão da física. Se a matemática é uma linguagem, ela não deveria influenciar no objeto que descreve. Sendo assim, qual a origem da dúvida de Reed e Simon?
Se a matemática não é uma linguagem dentre outras possíveis, então pode não haver outro meio para descrever a natureza. Ou seja, todo fenômeno físico deve necessariamente ter pelo menos uma abstração matemática que o modele. Ao físico teórico caberia relacionar as abstrações matemáticas aos fenômenos físicos. O mundo real seria assim aproximadamente igual a uma fração deste mundo abstrato. Não se pode então dizer que a matemática seja apenas uma linguagem, é possível que, a partir de abstrações, fenômenos físicos sejam procurados. É como criar palavras e depois verificar se existe algo corresponda ao seu significado. Grande parte da física teórica é atualmente feita assim.
Voltando a Kant, os objetos matemáticos, tais como os da «razão pura», seriam artificiais e sem correspondentes na realidade, de maneira que a matemática não pode servir de modelo para outros assuntos. A crítica de Kant envolve o uso da formatação matemática para a filosofia, mas podemos estendê-la à física. Kant não critica utilizar estas abstrações fora da matemática, mas sim descrever o mundo como fazem os matemáticos. Para complicar, a linguagem matemática seria inadequada à filosofia, e talvez seja à física. Ou seja, podemos usar matemática, mas não imitar os matemáticos com cientistas.
Respondendo Reed e Simon, a matemática influencia a física na medida em que seus objetos são indispensáveis para formular teorias. Se um fenômeno não consegue ser explicado, possivelmente a o meio matemático adequado não foi encontrado. A física é então dependente em grande parte tanto do progresso da matemática como da sua introdução na física.
quarta-feira, 11 de novembro de 2015
Água: mineral ou prejudicial?
Antigamente, todos bebiam a água das estações de tratamento. De uns dez anos para agora, um número crescente de pessoas apenas bebe água mineral engarrafada, sobretudo por conta da propaganda. Esta doutrinação convenceu as pessoas de que a água da torneira é prejudicial à saúde. Já vi muitos argumentos pró e contra esta prática, e discutamos alguns.
1. A água tratada é boa ao sair da estação de tratamento, já a que chega na torneira não tem esta garantia. Este argumento é válido apenas se o encanamento ou a caixa d'água domésticos estiverem em mau estado. Ao chegar ao cavalete das casas, a água é confiável, e não apenas na saída da estação. A razão é a pressurização da rede. Existem inúmeros vazamentos na rede, onde a água tratada é perdida, mas não há entrada da água do solo na rede. Se a pressão for insuficiente, haverá entrada de água do solo para a rede. Ou seja, contaminação. Esta situação não tem como ocorrer, pois caso contrário a água nem chegaria às casas. Logo, o argumento é falso.
2. A água tratada contém metais pesados. Suponhamos que isto seja verdade. Evitar a água de torneira tem algum efeito? Terminantemente, não. Tudo o que comemos ou bebemos é feito a partir de água, e não necessariamente de água mineral. Se alguém cozinha arroz na água da rede, todo o conteúdo de metais da água ficará no arroz. Neste caso, pode-se utilizar água mineral para cozinhar. Em todo caso, nem tudo resolve-se assim. O gado bovino não bebe água mineral, e todo o conteúdo de metais fica retido no corpo do animal. Assim, na carne do animal está todo o metal pesado que ele ingeriu através da água desde a sua vida intra-uterina. Há estimativas da necessidade de 70 litros de água para um bife de trezentos gramas. Ou seja, se se a pessoa comer em média um bife por dia, considerando que a pessoa tome um litro de água por dia, em cinco dias a pessoa já ingere o equivalente em metais para um ano de água. Isto sem considerar outras fontes. Nem os vegetarianos estão a salvo, pois os vegetais também acumulam os tais metais pesados, assim como o leite e os ovos. Ou seja, é se a água é contaminada com metais pesados, a menor fonte de ingestão é a água pura, as demais fontes têm um peso maior. Ou seja, o argumento é falso.
Além destas crenças, a água engarrafada tem outro problema: a embalagem. O primeiro problema é o lixo gerado. São milhões garrafas PET descartadas no ambiente, que contaminarão inclusive a água que será tratada. Além disso, não há como garantir que o plástico não libere substâncias de sua formulação na água. Estas garrafas são seguras em determinadas condições, sobretudo de temperatura. Se ficam no sol em ambientes quentes, como dentro dos caminhões de entrega ou armazéns, existe a possibilidade da liberação de, por exemplo, ácido ftálico. Ou seja, não há nenhum motivo racional para beber a água mineral. A propaganda bem sabe disto, e evoca a emoção, e nunca a razão, para suas campanhas. Um destes argumentos é o status, sobretudo para quem bebe uma água cara. Enfim, um exemplo da ignorância da nossa sociedade do pseudo-conhecimento, em que um discurso científico distorcido é usado para atender interesses estranhos à ciência.
1. A água tratada é boa ao sair da estação de tratamento, já a que chega na torneira não tem esta garantia. Este argumento é válido apenas se o encanamento ou a caixa d'água domésticos estiverem em mau estado. Ao chegar ao cavalete das casas, a água é confiável, e não apenas na saída da estação. A razão é a pressurização da rede. Existem inúmeros vazamentos na rede, onde a água tratada é perdida, mas não há entrada da água do solo na rede. Se a pressão for insuficiente, haverá entrada de água do solo para a rede. Ou seja, contaminação. Esta situação não tem como ocorrer, pois caso contrário a água nem chegaria às casas. Logo, o argumento é falso.
2. A água tratada contém metais pesados. Suponhamos que isto seja verdade. Evitar a água de torneira tem algum efeito? Terminantemente, não. Tudo o que comemos ou bebemos é feito a partir de água, e não necessariamente de água mineral. Se alguém cozinha arroz na água da rede, todo o conteúdo de metais da água ficará no arroz. Neste caso, pode-se utilizar água mineral para cozinhar. Em todo caso, nem tudo resolve-se assim. O gado bovino não bebe água mineral, e todo o conteúdo de metais fica retido no corpo do animal. Assim, na carne do animal está todo o metal pesado que ele ingeriu através da água desde a sua vida intra-uterina. Há estimativas da necessidade de 70 litros de água para um bife de trezentos gramas. Ou seja, se se a pessoa comer em média um bife por dia, considerando que a pessoa tome um litro de água por dia, em cinco dias a pessoa já ingere o equivalente em metais para um ano de água. Isto sem considerar outras fontes. Nem os vegetarianos estão a salvo, pois os vegetais também acumulam os tais metais pesados, assim como o leite e os ovos. Ou seja, é se a água é contaminada com metais pesados, a menor fonte de ingestão é a água pura, as demais fontes têm um peso maior. Ou seja, o argumento é falso.
Além destas crenças, a água engarrafada tem outro problema: a embalagem. O primeiro problema é o lixo gerado. São milhões garrafas PET descartadas no ambiente, que contaminarão inclusive a água que será tratada. Além disso, não há como garantir que o plástico não libere substâncias de sua formulação na água. Estas garrafas são seguras em determinadas condições, sobretudo de temperatura. Se ficam no sol em ambientes quentes, como dentro dos caminhões de entrega ou armazéns, existe a possibilidade da liberação de, por exemplo, ácido ftálico. Ou seja, não há nenhum motivo racional para beber a água mineral. A propaganda bem sabe disto, e evoca a emoção, e nunca a razão, para suas campanhas. Um destes argumentos é o status, sobretudo para quem bebe uma água cara. Enfim, um exemplo da ignorância da nossa sociedade do pseudo-conhecimento, em que um discurso científico distorcido é usado para atender interesses estranhos à ciência.
segunda-feira, 2 de novembro de 2015
Ciência, crise e culpados
O Brasil reduziu o investimento científico em 2105, tanto os estados como a união. A causa é a queda de arrecadação gerada pela baixa atividade econômica. Algumas publicações da blogosfera tecem mais considerações sobre o caso, vejamos três exemplos: Átila Iamarino atribui culpa aos cientistas por não divulgarem seus resultados ao público leigo. Se houvesse maior divulgação, os cortes seriam medidas impopulares, e os políticos pensariam duas vezes antes de tais cortes. Menciona o caso americano, onde os professores divulgam suas pesquisas o máximo possível. O professor Roberto Berlinck questiona esta visão, e considera que as universidades americanas têm uma melhor situação por sua melhor administração. Adicionalmente, observa que a divulgação científica é mal-vista nas universidades brasileiras, inclusive pelos alunos. Finalmente, o professor Marcos Pedlowski observa aspectos políticos, e argumenta que as instituições públicas estão em segundo plano para o governo federal, que destina expressivas importâncias para faculdades privadas.
A tal crise não começou com a recessão, e imputar a culpa na falta de divulgação científica, como faz Atila Iamarino, é um argumento ingênuo. É como acreditar que o governo não reduziria este gasto se houvesse mais divulgação. Seria benéfico um aumento da divulgação, mas é improvável que a população vá às ruas protestar por conta dela.
A afirmação do professor Pedlowski da falta de uma política para o setor parece mais acertada. Ou seja, é necessário um modelo universitário de ensino e de pesquisa. Neste quesito, o argumento da má gestão do professor Berlinck tem implicações profundas. Parece pouco crível que a mudança de administração consiga sozinha mudar alguma coisa. É como acreditar que cientistas importantes eram bons administradores, ou que sempre foram respaldados por boas administrações. Se assim fosse, Einstein não desenvolveria a relatividade especial quando trabalhava num escritório de patentes. Entretanto, o prof. Berlinck cita a Universidade de Michigan em Ann Arbor como um exemplo a ser seguido. Financiada majoritariamente por doações e mensalidades, esta universidade tem vencedores de prêmio Nobel e figura numa boa posição na classificação do jornal The Times. Estes ranking são controversos, seja por empregarem critérios discutíveis, seja por desconsiderarem o contexto de cada país. Por trás destas classificações, existe um modelo de universidade, único para o mundo inteiro.
Todavia, qual o melhor critério para avaliar uma universidade e definir o tal modelo? o mais fácil, e não necessariamente o melhor, é aceitar um palpite. Para muitos, basta consultar o The Times Higher Education ou outra classificação. O outro caminho, é a comunidade acadêmica estudar o problema e desenvolver este modelo adequado à sua realidade. Uma academia incapaz de elaborar um projeto de universidade, e que procura num jornal o que deve fazer tem sérios problemas. Isto talvez aponte a origem da turbulência na ciência no Brasil. A pior crise não é de financiamento, é intelectual. O dinheiro é necessário, mas não suficiente. Uma academia que copia modelos e que chora por não poder copiá-los nunca será respeitada. A prática da cópia, que é diferente do plágio, torna os originais como vilões, e isto explica parte da resistência à divulgação. Quem não cria, não quer que os outros saibam disso. A intelectualidade americana, onde existem muitíssimos estrangeiros, é respeitada internamente também por ser considerada original, independente e influente, e somente quem cria influencia. É claro que a divulgação ajuda, mas não basta divulgar, é preciso criar. Esta chaga estava oculta pelo financiamento abundante de anos atrás. Quando este diminuiu, ficou evidente.
Todavia, qual o melhor critério para avaliar uma universidade e definir o tal modelo? o mais fácil, e não necessariamente o melhor, é aceitar um palpite. Para muitos, basta consultar o The Times Higher Education ou outra classificação. O outro caminho, é a comunidade acadêmica estudar o problema e desenvolver este modelo adequado à sua realidade. Uma academia incapaz de elaborar um projeto de universidade, e que procura num jornal o que deve fazer tem sérios problemas. Isto talvez aponte a origem da turbulência na ciência no Brasil. A pior crise não é de financiamento, é intelectual. O dinheiro é necessário, mas não suficiente. Uma academia que copia modelos e que chora por não poder copiá-los nunca será respeitada. A prática da cópia, que é diferente do plágio, torna os originais como vilões, e isto explica parte da resistência à divulgação. Quem não cria, não quer que os outros saibam disso. A intelectualidade americana, onde existem muitíssimos estrangeiros, é respeitada internamente também por ser considerada original, independente e influente, e somente quem cria influencia. É claro que a divulgação ajuda, mas não basta divulgar, é preciso criar. Esta chaga estava oculta pelo financiamento abundante de anos atrás. Quando este diminuiu, ficou evidente.
terça-feira, 27 de outubro de 2015
A ciência auto-corretora
Para saber se algo é verdadeiro, é preciso de alguma referência. Assim funciona com quase tudo. Se alguém mente, algumas perguntas desmascaram o engodo. Porém, se alguém diz algo que acredita verdadeiro, pode ser preciso mais que perguntas para saber se a afirmação procede. Na ciência, a referência é a natureza. Se queremos saber se algo é verdadeiro, formulamos uma pergunta de maneira que a resposta possa ser resolvida com um teste prático. De onde vem o carbono para as plantas crescerem? A fotossíntese revela que vem do ar, e não do solo. Afirmações assim são feitas em revistas científicas, e todo artigo contém algo que o seu autor acredita verdadeiro. Isto não garante que não existam artigos com erros. Excluídas as falsificações propositais, há equívocos de variadas origens: hipóteses mal-elaboradas, experimentos mal-conduzidos, metodologias inadequadas, equipamentos defeituosos, dentre outras causas. Antes de publicados, os artigos foram revisados, mas o assessor pode não notar o erro e recomendar a publicação do trabalho. Depois de publicado, quem utiliza o resultado do artigo deve repetir o experimento para comprovar sua veracidade. Ou seja, todo o conhecimento publicado foi analisado por um assessor e posteriormente pela comunidade científica inteira. Levanta-se assim a hipótese da ciência dispor de um mecanismo interno de correção, sendo esta a base da sua credibilidade.
Entretanto, o professor Douglas Allchin considera a auto-correção científica um mito¹. Ele apresenta exemplos de erros persistentes por longa data, detectados apenas ocasionalmente e contestando o funcionamento da auto-correção. Dentre os exemplos citados, está a descoberta da origem bacteriana das úlceras gástricas. Milhões de pessoas foram inutilmente tratadas com anti-ácidos ou mesmo operadas antes da descoberta do erro, cuja a correção enfrentou enorme resistência dos médicos. Os detentores do saber estabelecido estavam apaixonados pelo que sabiam, ou achavam que sabiam, e ao mesmo tempo apaixonaram-se pela própria ignorância. Além de contrariar a hipótese da auto-correção, pois a comunidade tentou negar o fato ao invés de investigar a teoria aceita, o caso também refuta a hipótese de que paixões não influem na ciência.
Outra paixonite atingiu primatologistas. Partindo-se da certeza, e não da hipótese, de que o homem é um animal único, estudaram-se os hábitos dos chimpanzés. Formularam a hipótese de que o homem era o único animal a produzir ferramentas. Quando descobriram que macacos também o faziam, a conclusão deveria ser de que o homem não é um ser único, mas um animal como os demais. Contudo, formularam outras hipóteses, como que o homem seria o único a ensinar os filhotes o uso das ferramentas; observado isto também nos macacos, disseram que o homem seria o único a planejar a utilização das ferramentas, e assim por diante. Sempre que os fatos contrariavam a crença, procurava-se outra hipótese para validar a suposta singularidade humana. Ou seja, os fatos não refutaram argumentos baseados em crenças, novamente contrariando também a hipótese da auto-correção. No artigo de Allchin, existem mais exemplos da dificuldade da ciência em identificar e corrigir os seus equívocos.
Esta conclusão coloca em questão a imagem social das ciências e dos cientistas, e os usos práticos destas imagens. A credibilidade científica é usada para variados fins, como induzir pessoas a comprar produtos e serviços, procurar tratamentos, aceitar argumentos e eleger políticos sem pensar muito. Ao tornar as pessoas menos críticas e a aceitar mais facilmente aquilo que não entendem, a ciência passa a ser um instrumento de dominação e não de libertação, escrava de interesses comerciais e políticos e não um meio de defesa contra tais interesses. Este sub-produto trágico da ciência, que obscurece ao invés de esclarecer, onde cientistas e teorias são adorados ou odiados como deuses é questionado por Allchin, o que confere relevância ao seu trabalho. O atual momento é de transformação, e tudo indica que a ciência do futuro será mais especializada, mais fragmentada e mais alienada de outros setores do conhecimento, quem também tendem ao isolamento. O resultado disto no longo prazo é imprevisível, mas parece mais um passo no caminho para o fim do intelectual total idealizado da antiguidade clássica e cristianizado na idade média. O futuro será dos super-especialistas, por bem ou por mal.
Outra paixonite atingiu primatologistas. Partindo-se da certeza, e não da hipótese, de que o homem é um animal único, estudaram-se os hábitos dos chimpanzés. Formularam a hipótese de que o homem era o único animal a produzir ferramentas. Quando descobriram que macacos também o faziam, a conclusão deveria ser de que o homem não é um ser único, mas um animal como os demais. Contudo, formularam outras hipóteses, como que o homem seria o único a ensinar os filhotes o uso das ferramentas; observado isto também nos macacos, disseram que o homem seria o único a planejar a utilização das ferramentas, e assim por diante. Sempre que os fatos contrariavam a crença, procurava-se outra hipótese para validar a suposta singularidade humana. Ou seja, os fatos não refutaram argumentos baseados em crenças, novamente contrariando também a hipótese da auto-correção. No artigo de Allchin, existem mais exemplos da dificuldade da ciência em identificar e corrigir os seus equívocos.
Esta conclusão coloca em questão a imagem social das ciências e dos cientistas, e os usos práticos destas imagens. A credibilidade científica é usada para variados fins, como induzir pessoas a comprar produtos e serviços, procurar tratamentos, aceitar argumentos e eleger políticos sem pensar muito. Ao tornar as pessoas menos críticas e a aceitar mais facilmente aquilo que não entendem, a ciência passa a ser um instrumento de dominação e não de libertação, escrava de interesses comerciais e políticos e não um meio de defesa contra tais interesses. Este sub-produto trágico da ciência, que obscurece ao invés de esclarecer, onde cientistas e teorias são adorados ou odiados como deuses é questionado por Allchin, o que confere relevância ao seu trabalho. O atual momento é de transformação, e tudo indica que a ciência do futuro será mais especializada, mais fragmentada e mais alienada de outros setores do conhecimento, quem também tendem ao isolamento. O resultado disto no longo prazo é imprevisível, mas parece mais um passo no caminho para o fim do intelectual total idealizado da antiguidade clássica e cristianizado na idade média. O futuro será dos super-especialistas, por bem ou por mal.
1. Allchin, D. 2015. "Correcting the ‘Self-correcting" Mythos of Science." Filosofia e História da Biologia 10:19–35.
domingo, 18 de outubro de 2015
A fosfoetanolamina cura o câncer?
Interessante a polêmica em torno da fosfoetanolamina para tratar o câncer. O professor Gilberto Chierice, aposentado do Instituto de Química da USP em São Carlos (IQSC), estudou esta substância e acredita que ela pode ser um tratamento. Ele chegou a distribuir mais de 50.000 cápsulas da substância por mês, e a atividade de Chierice chegou à grande imprensa e à internet depois de ações judiciais pelo direito de receber a substância. Vejamos alguns aspectos.
"Não existem evidências científicas da eficácia da fosfoetanolamina". Segundo esta frace, existe uma classificação de evidências, sendo a 'evidência científica' a mais evidente da escala. A ciência deve explicar fatos, e não existe divisão entre fatos científicos e fatos não-científicos. No máximo existe o estudo sistemático de fatos. Medicamentos já foram desenvolvidos a partir do conhecimento popular, excluindo os inócuos e potencializando os eficazes. Substâncias naturais sempre foram utilizadas popularmente, e agora a substância é sintética. Entretanto, não se pode negar o fato de pessoas tomarem regularmente a substância e dizer que não é uma 'evidência científica'. Negar fatos é um profundamente anti-científico. Se pessoas tomam a substância para uma ou várias enfermidades, cabe ao cientista estudar metodicamente e verificar se a substância tem eficácia.
Por outro lado, existe uma questão ética. O prof. Chierice distribuiu a fosfoetanolamina sem o conhecimento dos seus efeitos. Ele tampouco sabe se alguém se curou, nem de efeitos colaterais, nem de contra-indicações, nem se quem tomou realmente tinha câncer. Enfim, as etapas para a transformação de uma droga potencialmente terapêutica num medicamento foram ignoradas. Tampouco se pode dizer que tomar fosfoetanolamina seja um tratamento. A distribuição foi aleatória e quem tomou as cápsulas foi cobaia de uma experiência sem controle. Enfim, é uma atitude de alto risco, e cabe ao professor explicar a sua conduta. Mas a ação já ocorreu, e não se pode dizer que um fato é falso por conta de um ato aparentemente anti-ético. Não cabe à ciência validar fatos, mas somente explicá-los.
terça-feira, 13 de outubro de 2015
A história como ciência
Todas as ciências constroem modelos. Um modelo é um representação simplificada da realidade. Se alguma coisa se acelera, a mecânica de Newton diz que há uma força. A força é um modelo para a aceleração. O evolucionismo de Darwin é um modelo para a transformação dos seres vivos. Nenhum modelo é completo, e sempre há fenômenos que ele é incapaz de descrever, e assim a ciência permanece em eterna construção, sempre a rever e construir modelos.
Seria a história uma ciência? Ela não faz predições como: dadas tais condições, o resultado será tal. A história descreve o passado, e nisto ela é próxima da biologia, que descreve os seres vivos. Assim como a história não prevê o futuro das sociedades, a biologia não prevê novas espécies. Por outro lado, a história permite comparações. É possível comparar a história de guerras, de impérios, de religiões, etc... Desta forma, é possível formular modelos, e tentar observar se estes fenômenos obedecem algum padrão, e talvez fazer predições qualitativas sobre eventos contemporâneos.
Vejamos uma ilustração: em "A revolução industrial da idade média", Jean Gimpel descreve técnicas produtivas desenvolvidas entre os séculos XI e XIII, sobretudo na França. Alguns exemplos de invenções do período: um estribo que permitiu que a carga transportada por carroças fosse mais que triplicada sem aumentar o número de cavalos; diversas propulsões de moinhos; a mecanização da produção da lã; o rodízio triplo de campos agrícolas; e a introdução da cultura da aveia. Outro caso foi o desenvolvimento de sofisticados relógios mecânicos. Estas novidades estiveram ligadas à Igreja Católica, cuja Ordem Cistercience desempenhou um papel fundamental na França. Os monges desta ordem eram operários disciplinados e formaram a mão-de-obra mais produtiva do período. Catedrais de grande envergadura e altura foram construídas como símbolos de poderio econômico e capacidade técnica.
Muito bem, trata-se de algo bastante interessante e que poderia esgotar-se aí. Porém, Gimpel utiliza a França medieval como modelo para a história contemporânea dos Estados Unidos. Se o modelo for adequado, ele permite fazer previsões acerca da história americana. Como desejado, o modelo é mais simples que o objeto a ser modelado, e tem elementos que permitem comparações. Tanto os EUA como a França cisterciense tiveram o seu operariado, no caso francês motivado pela religião, e no caso americano pela ideologia do liberalismo econômico. Os trabalho nos mosteiros cistercienses encontra paralelo nas fábricas do modelo de Henry Ford. Thomas Edison foi figura deste ímpeto de criatividade industrial, tal como alguns monges inventivos citados no livro.
Atualmente, observamos sinais de decadência dos americana, como a crise do sub-prime. A França medieval já decaiu e transformou-se, e Gimpel pergunta se algumas das características da decadência francesa podem ser vistas nos EUA para modelar o seu declínio, mesmo que parcialmente. No caso francês, aquela sociedade estagnou-se quando substituiu o esforço criativo pelo ócio contemplativo. Neste momento, a sociedade vai admirar e proteger o que criou. Isto é observado nos EUA, que paulatinamente deixam de ser uma potência industrial e sua população mais usufrui dos resultados desta industrialização do que tenta reformá-la. Também a construção de catedrais permite o uma comparação com a construção de arranha-céus, que simbolizaram a grandeza americana. Esta corrida pela altura ainda existe, e hoje os prédios mais altos estão na Ásia, que também os ostenta com o mesmo fim.
Outro parâmetro é a tecnologia militar, um dos poucos setores em que os Estados Unidos permanecem na vanguarda. Coisa semelhante ocorreu na França, cujo este poderio militar foi empenhado na guerra dos cem anos. Após esta guerra, a França medieval não manteve sua estrutura produtiva e tornou-se um país muito diferente do que foi durante sua revolução industrial. Este fenômeno pode também ser visto nos EUA, que consumem muitos recursos em empreitadas belicosas. É claro que a comparação não é exata, pois modelos não são a realidade, e além disso as predições são qualitativas. Em todo caso, utilizar a história medieval entender a história contemporânea é um exemplo de modelo simplificado para descrever um fenômeno mais complexo. Ou seja, a história não é apenas uma crônica de fatos, mas uma ciência que emprega o método científico para coletar dados e elaborar modelos das atividades humanas.
Seria a história uma ciência? Ela não faz predições como: dadas tais condições, o resultado será tal. A história descreve o passado, e nisto ela é próxima da biologia, que descreve os seres vivos. Assim como a história não prevê o futuro das sociedades, a biologia não prevê novas espécies. Por outro lado, a história permite comparações. É possível comparar a história de guerras, de impérios, de religiões, etc... Desta forma, é possível formular modelos, e tentar observar se estes fenômenos obedecem algum padrão, e talvez fazer predições qualitativas sobre eventos contemporâneos.
Vejamos uma ilustração: em "A revolução industrial da idade média", Jean Gimpel descreve técnicas produtivas desenvolvidas entre os séculos XI e XIII, sobretudo na França. Alguns exemplos de invenções do período: um estribo que permitiu que a carga transportada por carroças fosse mais que triplicada sem aumentar o número de cavalos; diversas propulsões de moinhos; a mecanização da produção da lã; o rodízio triplo de campos agrícolas; e a introdução da cultura da aveia. Outro caso foi o desenvolvimento de sofisticados relógios mecânicos. Estas novidades estiveram ligadas à Igreja Católica, cuja Ordem Cistercience desempenhou um papel fundamental na França. Os monges desta ordem eram operários disciplinados e formaram a mão-de-obra mais produtiva do período. Catedrais de grande envergadura e altura foram construídas como símbolos de poderio econômico e capacidade técnica.
Muito bem, trata-se de algo bastante interessante e que poderia esgotar-se aí. Porém, Gimpel utiliza a França medieval como modelo para a história contemporânea dos Estados Unidos. Se o modelo for adequado, ele permite fazer previsões acerca da história americana. Como desejado, o modelo é mais simples que o objeto a ser modelado, e tem elementos que permitem comparações. Tanto os EUA como a França cisterciense tiveram o seu operariado, no caso francês motivado pela religião, e no caso americano pela ideologia do liberalismo econômico. Os trabalho nos mosteiros cistercienses encontra paralelo nas fábricas do modelo de Henry Ford. Thomas Edison foi figura deste ímpeto de criatividade industrial, tal como alguns monges inventivos citados no livro.
Atualmente, observamos sinais de decadência dos americana, como a crise do sub-prime. A França medieval já decaiu e transformou-se, e Gimpel pergunta se algumas das características da decadência francesa podem ser vistas nos EUA para modelar o seu declínio, mesmo que parcialmente. No caso francês, aquela sociedade estagnou-se quando substituiu o esforço criativo pelo ócio contemplativo. Neste momento, a sociedade vai admirar e proteger o que criou. Isto é observado nos EUA, que paulatinamente deixam de ser uma potência industrial e sua população mais usufrui dos resultados desta industrialização do que tenta reformá-la. Também a construção de catedrais permite o uma comparação com a construção de arranha-céus, que simbolizaram a grandeza americana. Esta corrida pela altura ainda existe, e hoje os prédios mais altos estão na Ásia, que também os ostenta com o mesmo fim.
Outro parâmetro é a tecnologia militar, um dos poucos setores em que os Estados Unidos permanecem na vanguarda. Coisa semelhante ocorreu na França, cujo este poderio militar foi empenhado na guerra dos cem anos. Após esta guerra, a França medieval não manteve sua estrutura produtiva e tornou-se um país muito diferente do que foi durante sua revolução industrial. Este fenômeno pode também ser visto nos EUA, que consumem muitos recursos em empreitadas belicosas. É claro que a comparação não é exata, pois modelos não são a realidade, e além disso as predições são qualitativas. Em todo caso, utilizar a história medieval entender a história contemporânea é um exemplo de modelo simplificado para descrever um fenômeno mais complexo. Ou seja, a história não é apenas uma crônica de fatos, mas uma ciência que emprega o método científico para coletar dados e elaborar modelos das atividades humanas.
terça-feira, 6 de outubro de 2015
A demissão de Renato Janine Ribeiro do MEC
Durou cinco meses a gestão do professor Renato Janine Ribeiro no Ministério da Educação. Professores universitários frequentemente fracassam quando indicados para cargos políticos. Não vou discutir a sobrevivência política de FHC, Fernando Haddad, Paulo Renato Souza, Cristovam Buarque e mais alguns, vou focar nos fracassados.
Qual seria o motivo dos repetidos malogros? Em meu ver, há uma clara incompatibilidade entre as funções acadêmica e política. Intelectuais não servem para elogios e bajulações. Intelectuais existem para criticar, apontar qualidades e defeitos através de análises fundamentadas. Entretanto, a vaidade típica dos políticos não aceita tal postura. Políticas equivocadas não podem ser responsabilidade nem do apaniguado anterior nem da cartilha do partido. Críticas nunca são bem-vindas por políticos, que sempre as atribuem a tentativas de desgastar a imagem da qual dependem para sobreviver. Além disso, o administrador público é refém das indicações para posições hierarquicamente inferiores, que estão prometidas aos bajuladores bem-apadrinhados. Ou seja, a chance de implementar qualquer projeto é ínfima.
A idéia de professores como sonhadores incapazes de lidar com situações práticas é o principal subproduto desta experiência. O mandatário político tem um ganho neste jogo, e cria para si a imagem de dar ouvidos a pessoas de bom nível intelectual, de fazer uma gestão "técnica". Ele também aufere alguma popularidade ao demitir quem não consegue resultados. O sucessor do cargo também ganha, pois constrói uma imagem de maior capacidade em relação ao nefelibata que o precedeu. Já o tal professor vê sua imagem jogada aos leões. Acreditou tolamente que o governante se interessava por suas idéias brilhantes, e não pelo verniz de ter um intelectual em seu governo por alguns instantes.
Até que ponto estas pessoas estão cientes destes problemas ao aceitar tais convites é uma matéria difícil de avaliar. Talvez achem que terão sucesso por conta de suas qualidades individuais. Independente desta auto-ilusão, o resultado concreto destas aventuras de arrivismo e vaidade é uma sociedade refratária a aproveitar o conhecimento universitário. Esta resistência social justifica a ingerência nas universidades, afinal afirma a superioridade dos políticos sobre os intelectuais. Como consequência secundária, ocorre uma crescente politização do ambiente acadêmico que fomenta o aparecimento de seguidores do exemplo do professor Janine, com declinante interesse por conhecimento, e crescente fascínio pelo poder.
Qual seria o motivo dos repetidos malogros? Em meu ver, há uma clara incompatibilidade entre as funções acadêmica e política. Intelectuais não servem para elogios e bajulações. Intelectuais existem para criticar, apontar qualidades e defeitos através de análises fundamentadas. Entretanto, a vaidade típica dos políticos não aceita tal postura. Políticas equivocadas não podem ser responsabilidade nem do apaniguado anterior nem da cartilha do partido. Críticas nunca são bem-vindas por políticos, que sempre as atribuem a tentativas de desgastar a imagem da qual dependem para sobreviver. Além disso, o administrador público é refém das indicações para posições hierarquicamente inferiores, que estão prometidas aos bajuladores bem-apadrinhados. Ou seja, a chance de implementar qualquer projeto é ínfima.
A idéia de professores como sonhadores incapazes de lidar com situações práticas é o principal subproduto desta experiência. O mandatário político tem um ganho neste jogo, e cria para si a imagem de dar ouvidos a pessoas de bom nível intelectual, de fazer uma gestão "técnica". Ele também aufere alguma popularidade ao demitir quem não consegue resultados. O sucessor do cargo também ganha, pois constrói uma imagem de maior capacidade em relação ao nefelibata que o precedeu. Já o tal professor vê sua imagem jogada aos leões. Acreditou tolamente que o governante se interessava por suas idéias brilhantes, e não pelo verniz de ter um intelectual em seu governo por alguns instantes.
Até que ponto estas pessoas estão cientes destes problemas ao aceitar tais convites é uma matéria difícil de avaliar. Talvez achem que terão sucesso por conta de suas qualidades individuais. Independente desta auto-ilusão, o resultado concreto destas aventuras de arrivismo e vaidade é uma sociedade refratária a aproveitar o conhecimento universitário. Esta resistência social justifica a ingerência nas universidades, afinal afirma a superioridade dos políticos sobre os intelectuais. Como consequência secundária, ocorre uma crescente politização do ambiente acadêmico que fomenta o aparecimento de seguidores do exemplo do professor Janine, com declinante interesse por conhecimento, e crescente fascínio pelo poder.
quarta-feira, 30 de setembro de 2015
Capital gera ciência?
Um boato que circula por aí diz que a ciência é movida pelo capital. Parece que o raciocínio funciona assim: algum capital é investido em pesquisa científica, e parte dos resultados são idéias lucrativas. Parte do lucro auferido com estas idéias é reinvestido em ciência, que gera outras idéias lucrativas e que geram mais investimentos em ciência. E assim funcionaria o ciclo virtuoso do capitalismo científico.
O raciocínio, porém contém alguns probleminhas. O primeiro é algo como a história da galinha e do ovo. Quem veio primeiro: o capital ou a ciência? Neste caso, porém, não há dúvida: a ciência é algo mais antigo que o capital, e existe em todas as culturas, independente de seu desenvolvimento econômico. Colocar o capital como causa da ciência, é dizer que o efeito veio antes da causa. Se a causa de alguma coisa está no futuro, ocorre uma inconsistência lógica. Como a afirmação de o capital gera a ciência não tem lógica, já podemos jogá-la no lixo.
Mas vamos tentar um pouco mais. Digamos que a o capital é a causa da ciência no passado recente. Ou seja, ele não era a causa da ciência na idade da pedra, mas desde algum tempo o capital é a causa real da nossa ciência pós-moderna. Quem afirma isto vai ter dificuldade em mostrar exatamente quando este processo começa, mas vamos ignorar também este defeito. Em todo caso, existe um defeito que não se pode esquecer. Dizer que a ciência é produto do capital, pressupõe que o capital, além de ser a sua causa, é a sua causa única. A ciência depende de uma série de fatores, como um sistema de ensino, de infra-estrutura, de uma cultura científica, de um arcabouço jurídico, de instituições de pesquisa, de órgãos que avaliam projetos de pesquisa, além, é claro, de dinheiro. Ou seja, a ciência é um produto da sociedade, e tudo o que tem por causa a sociedade sofre a influência dos elementos que a compõem. Dizer que a ciência tem uma única causa, seja ela qual for, é uma visão equivocada e qualquer explicação que tenha isto por pressuposto leva a uma conclusão falsa.
Além de logicamente inconsistente e de ter por pressuposto uma falsa noção de ciência, a afirmação não se sustenta nem do ponto de vista da lógica capitalista. Por que razão alguém investe em ciência para dar início ao tal ciclo? Será a ciência um investimento de lucro garantido? Muito raramente, pois a pesquisa é uma atividade de risco. Já o capital é inimigo do risco, vide o tumulto causado nos mercados financeiros por incertezas nos seus ganhos futuros.
Ou seja, gostem os devotos do mercado ou não, o capital sozinho não gera conhecimento científico. Recursos financeiros são necessários, mas estão longe de serem suficientes para que a ciência avance.
O raciocínio, porém contém alguns probleminhas. O primeiro é algo como a história da galinha e do ovo. Quem veio primeiro: o capital ou a ciência? Neste caso, porém, não há dúvida: a ciência é algo mais antigo que o capital, e existe em todas as culturas, independente de seu desenvolvimento econômico. Colocar o capital como causa da ciência, é dizer que o efeito veio antes da causa. Se a causa de alguma coisa está no futuro, ocorre uma inconsistência lógica. Como a afirmação de o capital gera a ciência não tem lógica, já podemos jogá-la no lixo.
Mas vamos tentar um pouco mais. Digamos que a o capital é a causa da ciência no passado recente. Ou seja, ele não era a causa da ciência na idade da pedra, mas desde algum tempo o capital é a causa real da nossa ciência pós-moderna. Quem afirma isto vai ter dificuldade em mostrar exatamente quando este processo começa, mas vamos ignorar também este defeito. Em todo caso, existe um defeito que não se pode esquecer. Dizer que a ciência é produto do capital, pressupõe que o capital, além de ser a sua causa, é a sua causa única. A ciência depende de uma série de fatores, como um sistema de ensino, de infra-estrutura, de uma cultura científica, de um arcabouço jurídico, de instituições de pesquisa, de órgãos que avaliam projetos de pesquisa, além, é claro, de dinheiro. Ou seja, a ciência é um produto da sociedade, e tudo o que tem por causa a sociedade sofre a influência dos elementos que a compõem. Dizer que a ciência tem uma única causa, seja ela qual for, é uma visão equivocada e qualquer explicação que tenha isto por pressuposto leva a uma conclusão falsa.
Além de logicamente inconsistente e de ter por pressuposto uma falsa noção de ciência, a afirmação não se sustenta nem do ponto de vista da lógica capitalista. Por que razão alguém investe em ciência para dar início ao tal ciclo? Será a ciência um investimento de lucro garantido? Muito raramente, pois a pesquisa é uma atividade de risco. Já o capital é inimigo do risco, vide o tumulto causado nos mercados financeiros por incertezas nos seus ganhos futuros.
Ou seja, gostem os devotos do mercado ou não, o capital sozinho não gera conhecimento científico. Recursos financeiros são necessários, mas estão longe de serem suficientes para que a ciência avance.
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